domingo, 2 de outubro de 2011
Matéria do Fantástico: Pacientes terminais sofrem em Aracaju.
O que a imprensa sergipana está cansada de comentar e vislumbrar, o Fantástico teve a oportunidade deregistrar: o Hospital João Alves Filho é uma roleta russa dos pobres. O antigo governo entregou ao novo e o novo escondeu a urgência para tirar das vistas dos visitantes, mas... a mentira tem perna curta, e o Fantástico denunciou:
Leiamos a matéria.
O Hospital de Urgência de Sergipe, em Aracaju é o maior da rede pública do estado. Há um mês, o repórter Eduardo Faustini esteve lá. Com uma câmera escondida, ele gravou imagens de abandono e muito sofrimento nos corredores improvisados como enfermarias.
São cenas chocantes. Em um corredor estava um paciente terminal de câncer, acompanhado pela mulher.
Mulher: Ele chegou ontem à noite.
Repórter: Não tem um quarto pra ele, não?
Mulher: Ainda não. Ele necessita sair daqui.
Repórter: Tem o quê?
Mulher: Câncer de pulmão. Já em estado terminal.
Repórter : E está no corredor. Não tem direito a um lugar?
Mulher: É. Porque diz que estão resolvendo se ele vai ficar, se não vai. Mais exame. Enquanto isso, a gente sofre. Eu trouxe a cadeira ontem e foi devolvida. Acho isso muito errado.
Repórter: A senhora não tem onde sentar?
Mulher: Não. Não tem onde sentar. Eu tenho que ficar andando, andando.
Uma obra fez com que o pronto-socorro fosse transferido para a área que originalmente era da pediatria. A unidade começou a funcionar sem que as instalações e o sistema de atendimento estivessem adequados.
O repórter Eduardo Faustini encontrou pacientes de todos os tipos - terminais, acidentados, clínicos - misturados nos corredores. Há pacientes sofrendo muito, como um homem, de 87 anos.
Mulher: É meu sogro que está aqui.
Repórter: Há quantos dias está aí?
Mulher: Ele entrou antes de ontem. Uns três dias, mais ou menos. Não respeitam a idade da pessoa, né? Fazer o quê. Está aí pra fazer uma biópsia, até agora não veio fazer.
Repórter: Ele tem o quê? Tumor?
Mulher: Nasceu aqui do lado.
Repórter: Tem que fazer uma biópsia, né?
Mulher: É. Já estourou, e não veio ninguém fazer essa biópsia pra tirar esse resto, fazer essa cirurgia.
Homem: Não estou bem.
Repórter : O que você tem?
Acompanhante: Coraçãozinho [mostra que o coração está grande].
Repórter: Coração?
Repórter: Está com o fêmur quebrado? Quebrou o fêmur?
Paciente: Foi.
Repórter: Desastre de moto.
Paciente: Foi.
Repórter: Eles falaram o quê? Pra você aguardar aí?
Paciente: Não, não falaram nada.
Repórter: O que ela tem?
Mulher: Foi um acidente de carro, atropelamento. Vão tirar uma tomografia pra ver o que acontece. Quebrou a perna em dois lugares.
As macas usadas como camas são apertadas e duras, como conta um funcionário do hospital, que não quer ser identificado.
“Os pacientes ficam nos corredores em cima das macas 15 dias, 20 dias. A situação é muito precária. Os pacientes vivem em macas 50cm X 1,30m, entendeu? Com colchões finíssimos”, conta o funcionário.
“Isso aqui é muito duro. Ela já está com as costelas doendo e a cama é de doer as costelas”, reclama a filha de uma paciente.
Os acompanhantes também sofrem, porque não têm lugar para passar a noite.
Repórter: Você está há seis dias dormindo nessa cadeira?
Filha: É. Desde o dia em que chegamos aqui. Já estou com a cabeça cheia, cheia de sono, desespero, de tanta coisa.
Uma mulher estava acompanhando o pai quando o Fantástico esteve no hospital. Ela diz que faltam medicamentos.
Mulher - Já vão fazer 30 dias que meu pai está aí, sofrendo. Tem dia que ele não dorme gritando de tanta dor. Hoje a enfermeira falou que não tem medicamento. Esse medicamento está em falta.
Repórter: Você que tem de comprar esse medicamento?
Mulher: Tem que comprar. Se não tiver dinheiro corre o risco de perder a perna por falta de medicamento.
A presidente da Associação de Médicos do Hospital de Urgência, Luciana Góes, diz que também faltam profissionais. Por isto, muitas vezes os cirurgiões têm que fazer uma escolha impossível.
Luciana Góes: Há plantões em que deveria ter cinco médicos e só tem dois médicos. Assim, casos em que tem dois médicos plantonistas e tem três ou quatro pacientes graves, a gente tem que escolher qual é o mais grave, qual o que vai ser operado primeiro. Quando, na verdade, os três ou os quatro deveriam ser operados prontamente. Às vezes o médico se vê numa situação dessas mesmo.
Repórter: Qual?
Luciana Góes: Escolher quem vive e quem morre.
“Definir quem vai operar é normal em qualquer hospital do mundo e você define pela gravidade. Cirurgia de emergência, se tiver um acidente, você vai ter que remanejar os pacientes, né?”, justifica o secretário de saúde de Sergipe Rogério Carvalho.
Há um mês, o secretário de saúde de Sergipe disse ao Fantástico que investimentos estão sendo feitos para ampliar a rede de hospitais públicos.
“O governo do estado está investindo R$ 100 milhões nos próximos... Tem um ano que já está fazendo investimento. Mais 2008, 2009, a gente deve concluir construção e reforma de 18 hospitais”, garante Rogério Carvalho.
Na sexta-feira passada, o Fantástico voltou ao hospital. Pacientes continuavam no corredor. O Ministério Público Estadual tentou obter uma liminar para fazer com que a unidade pediátrica volte a funcionar no espaço hoje ocupado pelo pronto-socorro. Não conseguiu. O promotor do caso, José Roni Silva Almeida, está recorrendo.
“Que a decisão do processo de mérito, que falta ser julgado ainda na 12ª vara cível, ela venha a atender esses anseios, de retomar aquele hospital como pediátrico, e encaminhar aquelas pessoas para um tratamento decente e adequado onde for necessário, inclusive, se for o caso, fora do domicílio, se nós não tivermos unidades hospitalares pra atender essa questão”, diz José Roni Silva Almeida. “A gente quer que não se morra mais ninguém. Isso que nós estamos querendo e lutando desde o começo pra que não aconteça”.
Fonte:http://www.itnet.com.br
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